MADAME na Alemanha | LOVE KILLS CAPITALISM | capítulo 1 (de 2)

O MADAME TEATRO com o apoio do Goethe-Institut e do City of Munich, Department of Arts and Culture and the Artist-in-Residence Programme in the Ebenböckhaus realiza, durante os meses de abril e maio de 2016, uma residência artística em Munique e Berlim.

LOVE KILLS CAPITALISM | capítulo 1 (de 2)

Refugee Jam

Campo militar
Munique, Alemanha, dia 09 de abril de 2016
um dia inteiro com um martelo na minha cabeça: “esse dia vai mexer comigo”.
Martim e eu fomos convidados por Anne, professora de alemão e integrante de um grupo não-governamental de jovens alemães que semanalmente providenciam eventos para os refugiados de países árabes, que chegaram na segunda leva e que estão vivendo em um dos campus militares da cidade, a uma festa para os refugiados.
Desta vez seria uma jam session em uma livraria cult dentro do campus universitário.
Chegamos antes do combinado no campo militar e de imediato fomos recebidos pelo grupo. Todos eles Sírios, todos eles homens. Como esperado, infelizmente não havia mulheres para a festa.

Anne nos contou que eles ficam a semana sem muito contato com outras pessoas e que mensalmente recebem uma ajuda do Estado.

Bom, voltando…
Poucos sabiam falar alemão ou inglês mas como a jam session seria para dançar, não seria muito importante a língua.
Eles estavam animados, se via pelos corpos, respiração, olhares e interações entre eles e nós. Um início já caloroso, com muitos sorrisos.

Anne, por algum motivo burocrático saiu e ficamos sós com eles. Ao saberem que sou brasileiro ganhei uma demonstração de capoeira.
Eram 07 homens, entre 23 e 50 anos, alguns deles estavam há 3 anos no alojamento, outros 6 meses, como Mandoh, que chegou no alto do inverno Europeu.

Mandoh 1
Tomando o espaço, ele chegou. Alto, forte, líder. Chegou chegando!
Se apresentou e apresentou todos, entre passos de dança e assobios, já se imaginando na pista de dança.
A energia era tanta que ele demonstrou capoeira sem ao menos ter feito uma aula na vida.
Ele estava conectado com o presente, com a alegria do momento presente e buscando uma vida nova.
O mestre sala da noite!

No caminho para a “refugee jam”
Para se chegar até à jam tínhamos que andar 15 minutos e ainda pegar um trem.
Nessa trajetória entre muitos assuntos soubemos que dos 07 sírios, 06 estão motivados a voltarem à Síria. Acreditam que lá é o seu lugar, único país, e tem fé na sua reconstrução. Muitos ainda têm familiares lá.
Mas Mandoh, o herói da noite, pensa diferente.

Mandoh 2
Martim perguntou como ele está “- MUITO BEM”. Se ele queria viver na Alemanha. “- ESTE É O MEU PAÍS”. Perguntei algo que nunca perguntaria, mas perguntei: E a sua família? “- EU NAO TENHO FAMÍLIA”. E a Síria?(para responder nos olhou, com assertividade, mantendo o passo da caminhada.) “- MEU PAÍS CAPUTE. SÍRIA CAPUTE. CAPUTE. NÃO EXISTE MAIS SÍRIA”.
Mandoh estudava matemática lá. Agora tem que primeiro melhorar o domínio da língua alemã para poder entrar e prosseguir os estudos aqui em Munique.

s i l ê n c i o

Continuamos a andar olhando pra qualquer lugar menos pra ele. Pensei em 134 coisas pra dizer ou pra fazer, quem sabe dar-lhe um abraço?
Pensei na cega jornada migratória dele, desde sair fugido do país, passando por mar, terra, montanhas, gelo, relento, associei ao período, era inverno europeu, pensei na época que morei em Londres e a sensação de sentir frio.

s i l ê n c i o

Até que olhei pra ele, e disse sem nenhuma palavra, e ele entendeu
“Hoje nessa Jam, pelo tempo presente que estivermos juntos, vamos ser absurdamente felizes!”

Chegamos na Refugee Jam
Uma livraria espaçosa toda de vidro.
Em cima da porta a frase LOVE KILLS CAPITALISM
Entramos. Uma música deliciosa.
Os DJs convidados eram também refugiados, já estavam em Munique há alguns anos.
No centro do espaço uma mulher alemã dançava com as mãos dadas com cerca de 5 adolescentes, também refugiados de países árabes, mas não sei ao certo quais, faziam uma espécie de dança de roda pra dentro e pra fora, pra dentro e pra fora. Algo tão inocente e marcante.

O nosso grupo estava meio tímido até que alguém teve que dar o start, e adivinha quem deu? Sim, Mandoh.
Foram horas de dança, Mandoh se divertia puxando seus colegas mais inibidos e dançando com eles, entre pausas para cigarro e ligações via Facebook para as mamãs que estavam do lado de lá.
Um dos 07, um jovem intelectual com seu smartphone projetava-nos ao vivo, assim os amigos que ficaram na Síria assistiam à grande dança. Um momento internacional de pura comunhão e integração- o poder da música e da dança!
Martim pediu um tutorial para aprender a usar esse live-stream.
Estávamos ao vivo pra alguém em outro país que não tínhamos a menor ideia.

As horas passavam e o vapor subia pelas paredes. No espaço muita energia, movimentos vibrantes, por vezes ritualísticos, urgentes.
As mulheres, todas elas alemãs, universitárias, dançavam freneticamente o que excitava os rapazes.

O lugar foi ficando abafado e com um cheiro masculino. Era muita energia, era a saída da semana, talvez do mês, talvez do ano.

(continua…)

Mme. Bagagal
Munique, 12 de abril de 2016

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