MADAME na Alemanha | LOVE KILLS CAPITALISM | Capítulo final

O MADAME TEATRO com o apoio do Goethe-Institut e do City of Munich, Department of Arts and Culture and the Artist-in-Residence Programme in the Ebenböckhaus realiza, durante os meses de abril e maio de 2016, uma residência artística em Munique e Berlim.

LOVE KILLS CAPITALISM | Capítulo final
Refugee Jam with Mandoh
Mandoh 3

Mandoh criou um círculo para o grupo dançar, todos mexiam um pouco, os mais tímidos observavam, filmavam, sorriam. Os menos tímidos se jogavam. Em algum momento todos entraram no círculo, até Martim dançou (!!).
Foi quando de repente senti um rápido mover da minha cintura pélvica, como num impulso Mandoh tirou a minha blusa rosa xadrez que estava amarrada na cintura e executou uma dança de jogar a camisa em roda, que passava de mão em mão.
Para jogá-la ele se agachava com o joelho direito.

Mandoh me ensinou alguns passos tradicionais Sírios, na empolgação percebi que inventou outros que também aprendi, afinal estávamos numa jam session.

A dança vital
clavículas frente trás frente trás
ombros em cima embaixo em cima embaixo
região pélvica encaixa desencaixa encaixa desencaixa
definitivamente a região mais ativada, a mesma responsável pelos impulsos da sobrevivência humana
V I V E R C O M E R P R O C R I A R
intercalado com palmas no ritmo da música (queixo diagonal baixo para ombro esquerdo)
Membros inferiores movimentos bruscos brutos
surgindo de impulsos espontâneos e viris
V I V E R C O M E R P R O C R I A R

Membros superiores movimentos staccatos sensuais
Punhos e mãos movimentos lânguidos, femininos, o símbolo do infinito (8)
Na boca G R I T O S

e no final, como um grand finale, num brusco movimento Mandoh derramou o vinho sobre a minha camisa branca
o vinho derramou na minha camisa branca, minha única camisa branca,
na região do plexo solar
e formou a imagem de uma vagina.

s i l ê n c i o

a música acabou

outra começou

o vidro, AGORA, está completamente embaçado.

Lutar
Uma noite dionisíaca.
Naquela noite me senti pertencente a uma nação, a nação humana.
A sensação de cidadão do mundo e que absolutamente tudo importa e nos influencia, desde a crise atual brasileira aos refugiados sírios.
A sensação de que eu, ancestral de africanos, índios e europeus, sou intimamente conectado aos meus irmãos árabes.
A noção que a questão das reservas indígenas é minha, assim como a questão da matança de bois para corte, assim como a questão da falta de fermento para o bolo do vizinho, ou do medo de dormir no escuro de uma pessoa, qualquer pessoa, de qualquer lugar, com qualquer questão também é minha. Assim como absolutamente qualquer questão minha é sua.
E soa clichê, démodé, superficial, mas Martim e eu nos sentimos amados por um grupo, e vice-versa.
E que posso eu, nós, fazer? No geral ver e enxergar além dos outros, além das instituições e lutar pelo respeito, pela verdade, pela ética em qualquer lugar que (ainda) não entende isso, em Belo Horizonte, Munique, Damasco, etc.

Mas talvez isso tudo seja apenas uma promessa, e não ando a prometer mais nada.

Mas a única coisa que pude fazer naquela noite foi ser absurdamente feliz no tempo presente e deixar Mandoh manchar minha melhor camisa de vinho.
Não quis lavar.
Não vou lavá-la.
É a tatuagem do momento.
uma
v a g i n a

Sim, love kills capitalism.
Love kills racism, machism, sexism, ageism, terrorism.
Sim, love has killed me since.
and sim, love will kill you too.

Mme. Bagagal
Munique, 14 de abril de 2016

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